Sexta-feira eu subia a rua Pamplona apressado para não perder meu ônibus para minas. Estava perdidos em meio a planos e saudades, quando na esquina quase com a avenida Paulista eu vejo um senhor gordo com sua bengala descendo a rua. Ao se aproximar ele me abordou de forma cordial e de bom humor – “Boa noite, não se preocupe não sou ladrão, até porque gordo desse jeito eu seria um fracasso.” – disse ele tirando seu boné a me cumprimentar batucando em um caderno preto de capa dura e continuou sua história:
“Sou professor de percussão e vim para São Paulo fazer prova em uma faculdade, só que no metrô me fizeram esta surpresa” – e puxando sua mochila preta e verde mostrou um corte no bolso lateral do lado direito – “e roubaram todo o dinheiro que eu tinha”. Fiquei imaginando o pobre professor em um vagão cheio, apertado feito sardinha em lata, e algum aproveitador fez o serviço, deixando-o sem outra opção para voltar para casa que não pedir ajuda na rua. Ele continuou seu discurso:
“Já fui na delegacia fazer ocorrência, estão apurando o caso, mas até agora não sei como vou conseguir voltar para a minha cidade. Por isso estou nessa situação e estou sendo obrigado a pedir ajuda para comprar a passagem.”
Peguei no bolso uma nota de dois reais, entreguei em sua mão e disse: “Gostaria de parabenizá-lo pela ótima atuação. Confesso que na primeira vez que me contou sua história, a alguns meses lá na rua da Consolação, fiquei sensibilizado e saquei dez reais para te ajudar a voltar para casa. Hoje te dou menos e espero que você não tenha a má sorte de contar novamente a mesma lorota para a mesma pessoa. Passar bem.” – e fui-me embora subindo apressado a Pamplona. Já era quase 11h00 e meu ônibus saÃa dali a 40 minutos.
E ele ficou desconsertado, sem graça, talvez muito puto e continuou sua caminhada Pamplona a baixo.
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