Archive for June, 2006

Falta de Respeito

O que significa respeito? Segundo o dicionário latino-português, a palavra “respeito” (lat. respectus, us) significa: olhar para trás, o refúgio, a atenção, reflexão sobre si mesmo. Silveira Bueno complementa que pode ser também relação, importância, temor. Os antigos filósofos resumem o significado de respeito no olhar para o outro.

Olhar para o outro, se colocar no lugar do outro. Hoje em dia as coisas são tão corridas, e andamos olhando tanto para o nosso próprio umbigo, que não nos preocupamos em “olhar para o outro”. É muito fácil quando você atropela os sentimentos de alguém, mas o simples fato de você se imaginar naquela situação já mudaria totalmente seu corportamento.

Existem muitos tipos, formas e variações de falta de respeito. Quando você sai do seu espaço e invade - no sentido de agressão, intromissão - o espaço do outro, está desrespeitando seu próximo. Um fumante que fuma em local público está invadindo o pulmão dos outros com a fumaça de seu cigarro. Um colega de trabalho que tira proveito das situações que te deixam em desvantagem para ele subir na carreira. Um virus que consome todos os recursos de seu hospedeiro, consumindo toda a matéria prima oferecida sem responsabilidade ou degradando o meio ambiente.

Todos estamos bem familiarizados com esses tipos de falta de respeito. Eu quero te mostrar uma falta de respeito que talvez você não se dê conta. Trazemos dentro de nós algo que é nossa personalidade. Temos manias, conceitos e valores que foram impressos na juventude e que foram mesclados com nossa essencia. Somos criaturas imperfeitas, erramos, mas devemos nos esforçar pra aprender com esses erros. As dificuldades e problemas são as melhores ferramentas para lapidarmos nosso caráter e moral. Quando você se observa, você descobre diversos pontos que devem ser melhorados, modificados. Mas não somos máquinas para sermos reprogramados em pouco tempo. Não nos conhecemos, e muitas vezes somos surpreendidos por comportamentos bons e ruins que antes eram desconhecidos por nós mesmos. Então como proceder?

Dessa falta de respeito que quero falar. Dizem que somos 3 pessoas, a primeira é o que queremos ser, a segunda é o que os outros esperam que sejamos, e a terceira é o que realmente somos. Com isso tentamos nos ajustar diariamente, reprimindo as coisas ruim e exaltando as coisas boas. A repressão não é a maneira mais adequada de se lapidar. Vivemos em constante falta de respeito com nós mesmos. Precisamos aprender a respeitar nosso organismo, nossas vontades e necessidades. Quando um sentimento é reprimido, ele fica armazenado, ele não é trabalhado. O que provavelmente vai acontecer é que uma hora a pressão vai estar tão grande e o sentimento reprimido vem à tona de forma violenta e descontrolada.

Quando você aceita o que sente, quando você escuta seu organismo, você consegue trabalhar o que te desagrada. Claro que existem casos e casos, e estou generalizando. Quando você já perdeu o controle está num ponto crítico fica difícil sair dessa armadilha por si próprio. O ideal é você ir trabalhando aos poucos seus comportamentos durante o convivio com eles. A mudança não é fácil, e consome tempo e muita determinação e força de vontade. A mudança só acontece de dentro pra fora e não de fora pra dentro. O exterior influencia, para o bem ou para o mal, depende da solidez de sua essencia se você vai ser corrompido ou não.

Precisamos confiar mais em nós mesmos, aprender a ouvir aquela vozinha que nos fala a todo momento, mas insistimos em ignorá-la. Só você faz a sua realidade, é muito simples e complexo ao mesmo tempo que tendemos a colocar essa responsabilidade nas outras pessoas. Seu buraco foi cavado por você mesmo, com uma colher, aos poucos, sem perceber. E só você tem a escada que pode te tirar de lá. Muitos podem aparecer com uma corda pra te ajudar, mas você precisa pelo menos ter forças pra aguentar segurar a corda na subida de volta. Novamente: Você precisa querer!

E esse querer vem acompanhado de respeito. Respeito a si próprio, depois aos outros. Se você não se respeita, como vai respeitar outra pessoa? Pense nisso.

amf 21.06.2006

Ouvindo: Bitter Sweet Symphony - The Verve

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Koi Project #1

Quinta-feira, 16 de março de 2006 - 16h00
Duração da sessão: 01h30

Finalmente é chegado o dia. Saí do trabalho logo depois do almoço. Fiz um lanche uma hora antes pra não baixar a pressão na maca. A ansiedade é gigante, um misto de medo e ansiedade. Cheguei no estudio pouco antes da hora marcada, já estava tudo preparado só me esperando. O Mauricio já havia passado o desenho pro papel manteira, e depois pra um papel específico pra fazer o decalque nas minhas costas. Ele cortou o desenho em três partes.

Ele mediu direitinho nas minhas costas e passou a 1a parte pra pele. Deitei na maca e começamos. Ele começou fazendo uns traços na altura do ombro direito, a cabeça da carpa. Primeiro traço, segundo traço, tudo certo. Terceiro traço, quarto traço, quinto traço, que dor é essa!!? Bateu arrependimento, desespero, suor frio, mas agora já era tarde pra voltar atras. Tinha de aguentar, logo o corpo começaria a se acostumar. Já havia conversado sobre a respiração com o Mauricio e fui tentando respirar igual quando vamos fazer um piercing. Eu inspirava e na hora que ele fazia o traço, expirava. Aguentei uns 15 minutos, mas comecei a ficar super oxigenado, fiquei meio tonto, os braços e pernas pareciam que tinham o motor das agulhas dentro deles.

Intervalo! Sentei um pouco na maca, levantei para tomar uma água e deixar o sangue circular pelo corpo. Quando olhei no espelho e padaço que já estava pronto, ganhei novo ânimo e a essa hora o arrependimento já tinha passado. Uns 5 minutos depois, já estava deitado na maca novamente. O processo foi ficando mais tranquilo, com o corpo se acostumando com a dor. Paramos mais umas 2 vezes depois. A dor variava de acordo com o lugar. Meu lado esquerdo dói mais que o lado direito. Quando tatuava em cima do osso era diferente de quando só em cima do músculo. No músculo lembra um pouco a dor de injeção, mas é como um arame arranhando. No osso é só o arame. Algumas partes parece que repuxa alguns pontos em lugares diferentes. As vezes parecia que tinha alguma coisa puxando dentro da barriga. Imagino que deva ser algum nervo.

Acredito que como foi o primeiro contato, o choque foi grande, mas no fim deu tudo certo. É gostoso quando termina e ele limpa a tatuagem com água, refresca e fica um ardido bom. Eu imaginava que a dor fosse mais suportável, mas não é nada de outro mundo também. O início foi ruim, mas depois o corpo se acostuma.

Achei esses dois artigos que falam sobre a origem da tatuagem oriental. A tatuagem passou de um adorno para a caça, a um instrumento de punição a criminosos, para a participação na Yakuza, até os dias de hoje, como manifestação artística.

Próxima sessão - 13.04.2006

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Koi Project

Inspirado no relato da tatuagem de Keith Alexander, resolvi fazer algo parecido pro meu projeto. Por enquanto vou fazer na forma de posts individuais, depois de terminado, monto uma página só com todo o processo.

A idéia de fazer uma tatuagem nas costas já tem mais de 9 anos. O plano original era fazer um ying yang de água e fogo nas costas, entre os ombros, com uns 15cm de diâmetro. Sempre tive vontade, mas ainda não tinha sentido necessidade.

Minha paixão pela cultura oriental influenciou totalmente o tema. Eu tinha a foto de uma tatuagem que era exatamente o que eu queria. Pensei em compor a tatuagem com o desenho de um bagua em volta, pra reforçar mais ainda o significado de equilíbrio.

Até que, 6 anos depois, vi essa tatuagem e tive certeza que era ela que eu queria. Passei mais 2 anos até sentir necessidade de tatuá-la.

Em novembro de 2005 comecei a procurar o artista. Eu já tinha juntado bastante referências, fotos de peixes, de outras tatuagens, do estilo tradicional japonês, só faltava achar quem iria fazer o trabalho.

Conversei com amigos que já tinham tatuagem e alguns me indicaram o Mauricio, e um tatuador de Brasília (Rabuja), namorado de uma amiga, também me indicou ele. Liguei, marquei um dia e fui lá conhecer o estúdio e conversar com ele pra ver o que eu sentia. Até então eu já tinha dado umas voltas por estúdios na galeria Ouro Fino e no Leds Tattoo, gostado de alguns, mas ainda tinha uma certa dúvida por qual escolher. Quando cheguei no estúdio do Mauricio logo de cara simpatizei com ele, já tinha visto algumas fotos do trabalho dele no seu site e o estudio é impecável. Vi o resto do portifolio dele e tive certeza de que ele era o cara. O preço estava compatível com as instalações e a qualidade do trabalho e fechamos. Deixei o material pra ele fazer o meu desenho e remarcamos pra fevereiro pra eu passar por lá. Ele tirou o molde das minhas costas e definimos até onde a carpa / koi iria chegar.

A ansiedade era grande, porque sou muito chato com detalhes, e confesso que estava com receio de não gostar do desenho logo de primeira. Eu gostei muito da idéia do preto e branco que é o caso da tattoo de referencia base, mas descobri que essa tattoo na verdade é laranja, só a foto está preto e branco. Eu não queria fechar as costas toda, queria uma carpa / koi nela toda, com foco no peixe e alguns splashs de água pra compor. Eu não gostei de alguns desenhos que vi com ela só nas costas, pareceia meio solta, a composição não me agradava, faltava movimento. E a carpa /koi descendo até a bunda era o movimento que eu vi na tattoo de referencia e que senti falta nas outras. Vi muita coisa em preto e branco com mais uma cor, dragões pricipalmente, e gostei muito. Então fomos pro preto e branco com amarelo / dourado.

Logo que vi o desenho me apaixonei por ele. O trabalho do Mauricio é muito realista e ele pegou outras referencias de livros de sumi-e que ele tem. Ele faz o desenho com aquarela e consegue reproduzir perfeitamente na pele o que produz no papel. Eu tinha medo da cabeça da carpa / koi, de ficar fina, triangular, como eu já tinha visto em outras tatuagens, eu gostei da cabeça da tattoo de referencia porque ela era larga, quase quadrada. E a minha ficou perfeita! As proporções ficaram ótimas. Eu só mudei, as cores que ele colocou a mais, na verdade ainda não tenho como saber como vai ficar. Se vamos deixá-la preto e branco ou com o amarelo, isso só vamos descobrir no processo. Eu tirei o azul do olho e o vermelho / laranja das escamas. Talvez o vermelho / laranja fiquem, mas decido isso depois. Como o peixe é bem grande e o foco principal é nele, a água / splash’s vão ficar só com sombreado (preto e branco).

Tudo acertado, marcamos a primeira sessão pro dia 16 de março de 2006. Até lá foi mais um mês de expectativa. Muita por sinal. Não fazia idéia do que era uma tatuagem, tinha receio de não aguentar a dor. Dúvidas não tinha nenhuma, o desenho era aquele, o tatuador era ele e ia ficar foda.

A lenda sobre a história da carpa / koi e porque as pessoas escolhem ela como tema para tatuagens:

“O Huang Ho (Rio Amarelo) atravessa todo o continente Chines. Para atingir sua fonte, a carpa / koi precisa nadar através de vales cheios de cachoeiras até a montanha Jishinhan. A lenda diz que se uma carpa / koi conseguir subir pela cachoeira Longmen Falls (Portão do Dragão), ela se transformará em dragão. Por causa da lenda, as carpas / kois se tornaram um simbolo de sucesso em vida.”

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